Uma ANTi-história sobre o processo da primeira cirurgia de redesignação sexual no Brasil: atores e suas relações sócio-políticas na ditadura civil-militar

Camilla Pinto Luna, Denise Franca Barros
DOI: https://doi.org/10.21529/RECADM.2021016

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Resumo

O presente artigo utiliza o arcabouço epistemo-metodológico da ANTi-History (Durepos, 2009; Durepos & Mills, 2012; Quelha-de-Sá & Costa, 2018a) para (re)montar a rede de atores envolvida na realização da primeira cirurgia de redesignação sexual no Brasil, em plena ditadura civil-militar (1964-1985). Durante tal período ocorreram graves violações aos direitos humanos, incluindo perseguição às pessoas LGBTQ+, consideradas ameaças à segurança nacional, à família e à moral. Aproximadamente três décadas após o final desse período, foi instituída uma Comissão Nacional da Verdade, cujos relatórios foram fundamentais para desvelar os crimes e abusos cometidos. No entanto, muitas das agressões contra LGBTQ+ permaneceram turvas, sendo um exemplo o caso de uma cirurgia que passa de uma questão de saúde pública a uma questão de justiça pública. Nesta pesquisa, seguimos vestígios deixados por rede de atores associadas a diferentes instituições da administração pública e que lidam, à época, com um mesmo fenômeno de formas distintas. Assim, este trabalho contribui para estudos históricos em Administração desvelando os momentos de virada (turning points) que definem aspectos inerentes a uma rede de atores em um passado, ao identificar alguns aspectos que ainda se encontram refletidos no momento presente de instituições pertencentes à Administração Pública.


Palavras-chave

ANTi-history; ditadura; transexualidade; primeira cirurgia de redesignação sexual


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